jun 5, 1997 dias atrás

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“Intercambistas da bola” tentam sonho de virarem astros no interior de São Paulo

Olé Brasil, clube de Ribeirão Preto, tem atletas da China, Cazaquistão, Haiti e Benim

Francisco De Laurentiis - enviado iG a Ribeirão Preto-SP

Bilou nasceu no Haiti. Faroukh, no Cazaquistão. Wang veio da China, enquanto Jerome é do Benim, no leste da África. Quatro garotos com um sonho cada vez mais universal: ser jogador de futebol. A chance apareceu na terra que revelou jogadores como Sócrates e Raí. Os quatro, ao lado de outros 102 jovens (além de técnicos, tutores e intérpretes), fazem parte do programa de intercâmbio do Olé Brasil, clube-empresa de Ribeirão Preto (320km de São Paulo), e tentam driblar diversas dificuldades na busca pela chance de ser o próximo companheiro de Messi ou Cristiano Ronaldo na Europa.

Embaixo do sol impiedoso de Ribeirão, os estrangeiros treinam como gente grande no CT do Olé Brasil, localizado em uma antiga fazenda na saída da cidade. Supervisionados pelos técnicos Gladston Stwart (ex-jogador do Flamengo) e Alexandre Ferreira (ex-atleta de São Paulo, Cruzeiro e Vasco), os garotos de 13 a 17 anos treinam fundamentos e aprendem tudo sobre as táticas do jogo. Eles também atuam em campeonatos oficiais da FPF (Federação Paulista de Futebol), representando – com grande destaque – a equipe auriroxa. Nem todos, porém, devem vingar nos próximos três anos, que é a duração do programa de intercâmbio.

Bilou, Faroukh, Wang e Jerome são apontados como destaques entre os jovens de seus países. O objetivo é que eles tenham o mesmo sucesso do camaronês Vincent Bikana, que disputou Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Corinthians e está atualmente no futebol suíço, e do cazaque Rauan Sariyev, que foi para a base do Atlético-MG após intercâmbio no Olé Brasil. Os quatro têm o sonho de atuar em grandes time da Europa, como Barcelona e Real Madrid, mas por enquanto ainda tentam ganhar alguma “ginga” brasileira enquanto aprendem português na escola da equipe. Para eles, nada de moleza: treino de dia, aulas de linguagem, matemática, física, química e biologia na parte da noite. A média é 7, e o estudo tem que ser levado a sério.

A vida no interior de São Paulo é pacata. Eles moram no hotel do Olé, com cada quarto acomodando dois garotos. Depois do treino, um pulo na piscina para aliviar o calor, ou horas na frente do computador (o time tem uma lan house para os atletas), matando as saudades dos pais e da terra natal via Facebook e Skype. De vez em quando, vão ao shopping, ao centro da cidade ou fazem passeios, como visita ao estádio do Pacaembu, na capital. Os garotos ficam em Ribeirão Preto de janeiro a setembro, quando voltam aos países de origem para visitar as famílias – a exceção são os chineses, que passam três anos direto no Brasil. Talvez por isso, quem melhor fala o português tenha olhos puxados.

Wang Xinwen não precisa de tradutor para se comunicar. Há um ano e meio vivendo em Ribeirão, o chinês de Pequim virou “Ronaldinho” no Olé Brasil, por dois motivos: é seu jogador favorito e também porque todos os colegas foram “abrasileirados” para ajudar os funcionários da casa. (Li Yi virou Raúl, Guo Xu tornou-se Gustavo, Li Xiaohan passou a ser Mário e Chen Jianan acabou como Júlio, por exemplo). Algo que só faz o garoto de 17 anos se sentir cada vez mais em casa. “Gosto demais daqui. Das pessoas, da comida, do futebol, do ambiente, e principalmente dos treinadores e professores”, diz “Ronaldinho” ao iG, na pausa entre treinos e estudos.

Fã também do alemão Özil, do Real Madrid, e nem um pouco apreciador do futebol de Chen Zizao, o “Zizão” do Corinthians, Wang diz que tenta a sorte no futebol porque nunca foi um bom aluno, algo que comprometeria seriamente suas chances no disputado mercado de trabalho chinês, mas mostra bom conhecimento sobre o que acontece nas quatro linhas: “Os brasileiros são os melhores do mundo individualmente, mas são piores no coletivo do que os espanhóis, por exemplo. E coletividade faz a diferença. É por isso que gosto do Barcelona, pois eles estimulam o futebol coletivo”, explica o chinês, torcedor do Beijing Guoan em seu país natal. “Nós, os chineses, até somos bons em times de juniores, mas a maioria dos atletas não se cuida depois, quando vira profissional. Eu vou fazer bem diferente”, completa, consciente sobre o futuro.

Nos passos dos ídolos

Bilou, Jerome e Faroukh gostam da culinária brasileira – principalmente do feijão preto -, mas ainda não dominam o português. Ajudados por intérpretes, os garotos contam ao iG que são apaixonados desde muito pequenos pelo futebol, e foram encorajados pelos pais a perseguirem o sonho da bola, mesmo tão longe de casa. Alguns tiveram até um exemplo a seguir: o pai de Faroukh, por exemplo, foi jogador profissional no Cazaquistão, onde o esporte começa a encontrar seu caminho.

Apesar da paixão pelo futebol brasileiro – a preferência por aqui é dividada entre Santos e Corinthians –  os garotos querem mesmo é em jogar na Europa. Eles sonham em atuar ao lado de craques como Messi e Cristiano Ronaldo, mas também se espelham em ídolos que praticamente “fundaram” o futebol em seus países de origem.

No Haiti, Bilou, de 15 anos, joga no ataque, mas ouve falar desde pequeno em Pierre-Richard Bruny, zagueiro de 40 anos, 14 deles prestados à seleção e muitos outros ao Don Bosco, time de coração do garoto. No Benim, Stéphane Sessègnon, ex-meia do Paris Saint-Germain e atualmente no Sunderland (Inglaterra), é o espelho de Jerome (16 anos) – torcedor do Dragons FC de l’Ouémé em seu país -, enquanto Faroukh, 15 anos, do Cazaquistão (e fã do FC Aktobe), se inspira no também jovem Bauyrzhan Islamkhan, da seleção de seu país.

Já na Europa, os ídolos são variados. Jogadores de meio-campo, Bilou e Faroukh apreciam a técnica apurada de Xabi Alonso (Real Madrid) e Steven Gerrard (Liverpool). Jerome, por sua vez, já prefere um bom centroavante: o camaronês Samuel Eto’o, eleito quatro vezes o melhor jogador do continente africano.

Enquanto lutam pelo sonho de serem astros do futebol, os garotos tratam de apreciar cada momento na boa estrutura do Olé Brasil. Entre os treinos e as aulas, gostam de passar horas na piscina, na lan house ou na TV comunal do complexo. Durante a semana, a programação televisiva é à base de filmes (dublados em português, de preferência), enquanto no final de semana o futebol – nacional e internacional – domina. Foi pela telinha que os jovens conheceram o maior astro do Brasil atualmente, um jogador citado frequentemente pelos garotos das quatro nacionalidades: Neymar, do Santos. “Joga demais”, derrete-se Jerome. “Mas o Cristiano Ronaldo é melhor”, rebate Bilou.

Haitianos são os melhores jogadores

Apesar do nome, Gladston Stwart é brasileiro. O técnico trabalha há seis meses com os intercambistas do Olé Brasil, e só vê pontos positivos na experiência. Segundo o profissional, os jovens do Haiti são os que demonstram maior qualidade técnica, apesar de todas as nacionalidades terem bons valores.

“O Haiti é o time mais forte que temos aqui. Eles têm estilo parecido com o do futebol brasileiro. O que eles fazem bem é misturar a parte tática do futebol europeu com a qualidade técnica e a ousadia do brasileiro. É o país que mais encanta quando a gente vê jogar”, diz Stwart. “Mas vejo vários meninos, não só do Haiti, em condições de jogar profissionalmente por aqui. Vários deles têm condição de figurar no futebol brasileiro e na Europa também”, completa.

Segundo o treinador, a chance de trabalhar com garotos de várias partes do mundo tem sido difícil, mas recompensadora. A barreira do idioma, como era de se esperar, é um dos maiores problemas. “É complicado dominar tanta língua difícil, mas a gente tenta. Já sei vários comandos de campo na língua de cada um. Às vezes acaba enroscando. Já falei chinês com russo, francês com chinês… É automático, às vezes dá um nó. Mas a experiência tem sido maravilhosa. uma troca muito legal. Eles vêm com o estilo deles, da Europa, da África, da Ásia, e a gente ensina e aprende muita coisa com eles”.

Ex-jogador, Gladston sabe das dificuldades em ficar longe da família por tanto tempo, mas não dá moleza para os comandados e pede seriedade sempre: “Tudo bem que eles estão longe de casa, sei que é difícil, mas eles estão fazendo o que gostam, que é jogar futebol. Estão tendo uma oportunidade que muitos gostariam de ter. Você fica longe da sua família, perde algumas coisas, mas são os sacrifícios da profissão. Digo para eles que futebol é muito sério. Eles são jovens e às vezes veem tudo na brincadeira, mas, se quiserem se tornar profissionais, vão precisar ser muito dedicados. Senão, no futuro vão olhar para trás e pensar: ‘Caramba, olha o que eu deixei passar’”, afirma.

Mesada e shopping

Antes de receber os atuais intercambistas, o Olé Brasil teve em seus campos garotos da África do Sul, Canadá, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Canadá, Namíbia, Nigéria, Alemanha e Zimbábue. Atualmente, o programa é dividido. Os grupos de Cazaquistão e China (que tem um garoto do Turcomenistão “infiltrado”) pagam para aprender o futebol em Ribeirão Preto. O dinheiro que vem da Ásia, inclusive, também seduz os brasileiros. “Em um outro programa de intercâmbio, o pessoal do Cazaquistão levou toda a nossa comissão técnica embora. E deu certo! Hoje, o (Lokomotiv) Astana é uma das principais forças do país”, conta Alexandre Jorge dos Reis, diretor financeiro do Olé. O Astana chegou a ser vice-campeão nacional em 2009, a apenas cinco pontos do título.

Os programas de Haiti e Benim, por sua vez, são feitos através de parceria com a ABC (Agência Brasileira de Cooperação), divisão do Ministério das Relações Exteriores que cuida de parcerias entre países. “Esse intercâmbio não é rentável para a gente, mas fazemos pela ação social, que, afinal de contas, representa muito mais”, relata Reis. De acordo com o dirigente, os garotos de Benim e Haiti ganham mesada de R$ 100, que acaba, na maioria das vezes, torrada nas lojas dos shoppings de Ribeirão.

“Eles gostam muito de chuteira e tênis. Toda vez que vão ao shopping ficam maravilhados. Mas também tem o pessoal que guarda (a mesada) e leva para os pais no fim do ano, quando eles voltam para casa”, diz. É um bom dinheiro para quem vive em dois dos países mais pobres do mundo. No Haiti, por exemplo, o salário mínimo é de aproximadamente R$ 100, mesma quantia recebida pelos jovens no auxílio dado pela ABC.

Alexandre Reis também diz que o intercâmbio, apesar de proporcionar muitos momentos divertidos, também não foi sempre um mar de rosas, principalmente para os professores da escola do Olé Brasil. “Você sabe como é moleque nessa idade, né? Faz muita bagunça…”. O momento de maior satisfação, porém, é ver a interação no refeitório (são quatro refeições diárias). Dividindo as mesas, os garotos comem o arroz e feijão de todo dia, enquanto tentam amenizar a saudade de casa com incompreensíveis conversas que misturam chinês, francês, russo e português. E, em meio à confusão de línguas e pátrias, de cabelos loiros, olhos puxados e peles negras, é possível ver uma grande família de “brasileiros”.

 

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